Ultraprocessados: a influência do design na sua saúde
Entenda como o visual de embalagens e rótulos molda escolhas alimentares e reforça o consumo de ultraprocessados.

 

Você já foi ao mercado para comprar manteiga e, ao chegar em casa, percebeu que trouxe um creme vegetal? Ou, para aquela feijoada de domingo, acabou escolhendo um produto “tipo calabresa” no lugar da calabresa tradicional?

Se a sua resposta for sim, saiba que é exatamente nesses momentos que o design exerce influência direta sobre nossas escolhas alimentares, muitas vezes de forma quase imperceptível.

Classificação dos alimentos: o ponto de partida

Para compreender melhor essa discussão, é importante conhecer como os alimentos são classificados. Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira, eles se dividem em quatro categorias: 1

  1. In natura: consumidos diretamente da natureza, sem nenhum tipo de alteração, como frutas, verduras e peixes.
  2. Minimamente processados: passam por pequenas etapas de processamento, como limpeza, secagem e moagem, sem adição de outros ingredientes.
  3. Processados: recebem a adição de substâncias que alteram sua composição original, principalmente açúcar ou sal.
  4. Ultraprocessados: produtos industriais compostos majoritariamente por aditivos e ingredientes artificiais, que podem ou não incluir alimentos naturais.

Alimentos in natura e minimamente processados são a base de uma alimentação equilibrada e contribuem para um sistema alimentar mais justo, sustentável e conectado à cultura local.1 Os ultraprocessados, por sua vez, devem ser evitados. Seja por sua formulação ou pela forma como são apresentados ao consumidor, eles tendem a ser ingeridos em excesso e acabam substituindo alimentos frescos e nutritivos.1

O impacto é expressivo: apenas em 2019, o consumo excessivo de ultraprocessados foi responsável por cerca de 57 mil mortes e gerou mais de R$ 10 bilhões em custos ao SUS.2-4

Embora nossos hábitos alimentares sejam moldados por fatores sociais, econômicos e culturais, o design também exerce grande influência nas nossas escolhas.

Como o design molda a percepção do consumidor?

Com a industrialização, surgiu um mercado altamente competitivo, em que as empresas buscam se destacar para conquistar espaço. Nessa corrida, o design se tornou uma ferramenta estratégica para diferenciar marcas e criar vínculos entre usuário e produto.5

De acordo com o psiquiatra suíço Carl Jung, que dedicou grande parte de suas obras ao estudo dos símbolos como expressão do subconsciente, um símbolo é uma palavra ou imagem que transmite algo além de seu significado imediato, transcendendo seu sentido literal.6

Esse conceito se conecta diretamente à noção de design emocional, estudada por Donald Norman, pesquisador e um dos pioneiros no design centrado no usuário. O design emocional identifica três níveis de percepção: visceral, comportamental e reflexivo.7

O design reflexivo refere-se a um nível de interação entre usuário e produto que ultrapassa dimensões estéticas (visceral) e funcionais (comportamental). Ele é fundamental na decisão de compra, pois busca se conectar com o consumidor por meio da familiaridade, evocando memórias e moldando como o indivíduo se enxerga através do produto, criando vínculos mais duradouros. Assim, a decisão de compra não se limita apenas ao preço ou à utilidade, mas à relação emocional estabelecida com o produto.5,7

As embalagens como uma narrativa cultural

Além de fornecer informações essenciais e obrigatórias, o design de embalagens cria narrativas socioculturais que se conectam com os valores e as visões de mundo do indivíduo.5 Veja alguns exemplos:

  • Um rótulo que faz alusão a produtos mais sustentáveis transmite responsabilidade ambiental;
  • Uma embalagem minimalista, com cores sóbrias e letras sofisticadas, comunica status e pertencimento a determinado grupo;
  • Imagens de frutas frescas em sucos industrializados despertam associações de saúde e vitalidade, enquanto informações em letras miúdas, como “alto teor de sódio” ou “rico em açúcar”, passam despercebidas.

Assim, a experiência de compra se torna um ato de autoexpressão. O design e o uso de símbolos criam uma ligação profunda com o indivíduo e provocam um senso de identidade que o transforma em consumidor da marca.5-7

O caso das batatas Lays

A batata Lays é um exemplo prático: após estudar o comportamento neurológico do consumidor, a marca identificou que embalagens brilhantes e cores saturadas despertavam sentimento de culpa no indivíduo por remeterem à ingestão de um produto de baixo valor nutricional.8

A partir disso, para criar a percepção de um produto mais saudável, a marca passou a adotar embalagens foscas, cores mais sóbrias e imagens do produto real – ainda que a composição contenha altos níveis de sódio e gorduras saturadas, compostos potencialmente prejudiciais à saúde do coração.8

Hierarquia da informação: quando o visual fala mais alto

A RDC nº 259/2002 da Anvisa estabelece regras gerais para rotulagem de alimentos embalados no Brasil, exigindo a presença de informações claras, legíveis e em português.9

Em 2020, a RDC nº 429 incluiu a obrigatoriedade de apresentar alertas na parte frontal da embalagem de alimentos com alto teor de açúcares adicionados, gorduras saturadas ou sódio.10

Mas, na prática, esses avisos muitas vezes são discretos, e elementos visuais estratégicos, como imagens e fontes chamativas, direcionam a atenção de quem compra.5

A hierarquia da informação pode criar uma percepção distorcida sobre o produto, fazendo com que o consumidor escolha um alimento ultraprocessado em vez de um minimamente processado, por exemplo.5

Como no caso da Coca-Cola, que reduziu a quantidade de açúcar de 11g para 7,4 g por 100ml para não precisar sinalizar “alto teor de açúcar” na embalagem. Para manter o sabor, adicionou adoçantes e incluiu o texto “menos açúcar”, reforçando a narrativa de um produto mais saudável sem oferecer uma mudança nutricional significativa.

Implicações éticas do design nas escolhas alimentares

A população mais exposta a produtos ultraprocessados é também a mais vulnerável financeiramente, criando um conflito entre preço e saúde alimentar.11 Nesse contexto, o design não é neutro: ele reforça padrões comportamentais e influencia a percepção das informações nutricionais.5

Por isso, precisamos questionar o design para além da estética ou da venda, já que ele pode:

  • Reforçar desigualdades;
  • Moldar narrativas de consumo que incentivam hábitos prejudiciais;
  • Perpetuar problemas de saúde pública, como obesidade e doenças crônicas, especialmente entre os mais vulneráveis.

A responsabilidade do design na saúde coletiva

Design e comunicação visual desempenham um papel central não apenas na atração do consumidor, mas na formação de hábitos alimentares e na cultura nutricional, muitas vezes criando percepções positivas sobre produtos de baixo valor nutricional.5-7 Esses conceitos ultrapassam o indivíduo e afetam a saúde coletiva e os sistemas de saúde, influenciando escolhas e padrões de consumo de forma quase imperceptível.2-4

É necessário refletir sobre o papel ético do design e sobre suas possíveis contribuições para o letramento alimentar da sociedade. Através de estratégias conscientes, a relação dos consumidores com os alimentos pode se tornar mais saudável e informada.

Referências

  1. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia Alimentar para a População Brasileira. Governo Federal. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/publicacoes-para-promocao-a-saude/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf/view>. Acesso em: 29 ago. 2025.
  2. JERONYMO, Guilherme. Custos de ultraprocessados e álcool ao SUS atingem R$28 bi por ano. Agência Brasil. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2024-11/custos-de-ultraprocessados-e-alcool-ao-sus-atingem-r-28-bi-por-ano>. Acesso em: 29 ago. 2025.
  3. NILSON, Eduardo; FIOCRUZ. Estimação dos custos da mortalidade prematura por todas as causas atribuíveis ao consumo de produtos alimentícios ultraprocessados no Brasil. 2024. Disponível em: <https://actbr.org.br/wp-content/uploads/2024/11/Relatorio-1-ACT_final_07.11.2024.docx.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2025.
  4. NILSON, Eduardo; FIOCRUZ. Estimação dos custos diretos e indiretos da obesidade, diabetes e hipertensão atribuíveis ao consumo de produtos alimentícios ultraprocessados na população adulta do Brasil. 2024. Disponível em: <https://actbr.org.br/wp-content/uploads/2024/11/Relatorio-2-ACT_final_07.11.2024.docx.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2025.
  5. CAMPINHO, Maria Inês Santos; ANDRADE, Júlia Carvalho; SANTOS FILHO, Eudaldo Francisco. A comunicação visual como atributo de percepção de qualidade dos alimentos. Informação em Pauta, v. 5, n. especial, p. 121-134, 2020.
  6. JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. 6. ed. Rio De Janeiro: Nova Fronteira, 2008. 
  7. NORMAN, Donald A. Design Emocional : Por que adoramos (ou detestamos) os objetos do dia a dia. 1. ed. Rio De Janeiro: Rocco, 2008.
  8. BLACKSMITH. The Principles of Neuromarketing. Blacksmith. Disponível em: <https://businessishere.tistory.com/3>. Acesso em: 29 ago. 2025.
  9. ANVISA. Rotulagem nutricional: definido prazo para uso de embalagens antigas. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: <https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2023/rotulagem-nutricional-definido-prazo-para-uso-de-embalagens-antigas>. Acesso em: 29 ago. 2025.
  10. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Resolução-RDC No 259, de 20 de Setembro de 2002. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2002/rdc0259_20_09_2002.html>. Acesso em: 29 ago. 2025.
  11. UNICEF. Estudo inédito do UNICEF aponta alto consumo de alimentos ultraprocessados em lares atendidos pelo Bolsa Família. UNICEF Brasil. Disponível em: <https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/estudo-inedito-do-unicef-aponta-alto-consumo-de-alimentos-ultraprocessados-em-lares-atendidos-pelo-bolsa-familia>. Acesso em: 29 ago. 2025.

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